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Texto
retirado de "Costa da Caparica", Elizabete
Tavares Ferreira, Almadarte, 1991
Margarida Braga
Vivia
numa posição sobranceira ao mar, por cima da rocha,
a Sul do Tejo, uma velhinha, que arrastava com dificuldade
o corpo cansado pelas vizinhanças, sempre
envolta por uma capa toda remendada. Pedia esmola,
que muitas vezes era recusada, pois diziam que era
rica, e que devia esconder o dinheiro em algum lugar.
Nunca faltou à missa realizada numa freguesia que
distava algumas léguas do lugar onde vivia. Também
muitas vezes era vista à beira da falésia, que dava
sobre a costa, a contemplar melancolicamente o mar.
Um dia apareceu morta no seu pobre casebre, envolta
na "rica" capa, como ela
costumava chamar-lhe. Os vizinhos, que acorreram,
encontraram um sobrescrito fechado, com a indicação
de que este fosse entregue ao rei, juntamente com
a sua capa. Antes de a enterrarem, tiraram-lhe
a capa e viram que pesava imenso. Com certo terror,
foram os vizinhos entregar a capa ao rei, junto com
a carta. O rei abriu o sobrescrito e leu o seu
conteúdo.
A velhinha legava-lhe a capa, para que Sua Majestade
mandasse construir uma igreja no povoado onde ela
vivera, e que tão longe ficava da Igreja paroquial.
O rei pediu que lhe entregassem a capa e ao sentir
o peso que tinha, mandou que a rasgassem. Com certa
repugnância, começaram a rasgar a capa, e foi com
imenso espanto que viram cair dobrões de ouro de cada
remendo que abriam. O rei prometeu construir
a Igreja, o que foi feito, tendo o povo começado a
chamar-lhe Igreja da Capa Rica, acabando por dizer,
simplesmente Igreja da Caparica.
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