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Lenda
da Caparica
versão ficcionada
por Victor Reis
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Conta
a tradição, que de pais para filhos vem sendo transmitida,
que há muitos muitos anos vivia na região interior
uma misteriosa mulher idosa de quem não era conhecida
família nem origem e que habitava num velho casebre,
isolada de toda a restante população da zona. Também
ninguém recordava quando a velha tinha aparecido pelas
redondezas e muito menos ao que viera. O mistério
era agravado pelo facto de se desconhecer do que se
alimentava pois não lhe era conhecido modo de vida
nem fonte de rendimento e, muito menos, alguma vez
fora vista na loja adquirindo bens alimentares ou
outras compras. Não tinha amizades, poucas palavras
eram ouvidas da sua boca e o seu ar estranho e o desconhecimento
da sua ocupação criou o mito entre a população de
que ela se dedicava à bruxaria e a estranhos e inexplicáveis
ritos. Uma coisa era certa: Efectuava diariamente
longas caminhadas, sendo vista em diferentes pontos
da região, distantes entre si de muitos quilómetros,
sempre envolvida numa longa capa que lhe ocultava
as formas do seu corpo, pelo que ninguém sabia se
era bonita ou feia, se esbelta ou disforme. Na época
da Primavera as suas ausências eram mais prolongadas
do que no restante do ano e constava entre a criançada
que nessa época vislumbravam no interior da sua capa
vasta riqueza de moedas de oiro sem fim, daí dizer-se
que a sua capa era rica, capa-rica. Nos finais de
Março início de Abril daquela era que a memória das
gentes não reteve, sentiu a velha mulher que os seus
dias do fim se aproximavam, fazendo então constar
o seu desejo de que a capa de que nunca se apartava
fosse entregue ao rei de Portugal para que ele lhe
desse a aplicação que melhor soubesse servir o Povo.
Quando a velha mulher faleceu, poucos dias depois,
a população apressou-se a dar cumprimento ao seu desejo,
tanto mais que a sua fama de feiticeira não lhes permitia
hesitações, fazendo a entrega da referida capa ao
rei de Portugal. Quando a capa foi presente ao rei
e este verificou o seu interior encontrou-a profusamente
repleta de douradas flores de acácia, colhidas no
vasto acacial que ainda hoje existe na zona litoral
compreendida entre a Trafaria e a Fonte da Telha.
Impressionado com tamanha sensibilidade mostrada por
aquela velha mulher que tanto sofrera em vida, o rei
fez constar da riqueza daquela capa, uma capa-rica,
daí o topónimo hoje mundialmente conhecido por Caparica,
compensando a população com a construção duma igreja,
a Igreja de Nossa Senhora do Monte e confirmando toda
aquela região com o designativo de Caparica. Costa
de Caparica - Monte de Caparica - Charneca de Caparica
- Sobreda de Caparica - Vila Nova de Caparica - S.
António de Caparica - S. João de Caparica - Lazarim
de Caparica.
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